Filosofias do Despertar, Vanguarda e Tradição

Fernando Pessoa & Rémi Boyer – Um Diálogo Espelhado

Por CYNTHIA GUIMARÃES TAVEIRA

(Publicado originalmente nos Cadernos de Filosofia Extravagante)

Tomaremos como ponto de partida a perspectiva de Mircea Eliade, a partir da qual estabelece três tipos de iniciação, ou três categorias iniciáticas explicitas na História das Religiões, sendo que “A primeira compreende os rituais colectivos pelos quais se efectua a passagem da infância, ou da adolescência para a idade adulta”(1), é a chamada iniciação tribal e é obrigatória para os membros de uma comunidade tradicional. A segunda “… compreende todas as espécies de ritos de entrada numa sociedade secreta, num Bund ou numa confraria.(2)Este tipo não é obrigatório, é muitas vezes reservado a um único sexo (a grande maioria das sociedades secretas são masculinas), sendo os casos dos reservados aos dois sexos muito raros, como é o caso dos Mistérios greco-orientais. E, por fim, uma terceira categoria:

“… aquela que caracteriza a vocação mística, ou seja, ao nível das religiões primitivas, a vocação do «homem-medicina» ou do xamã. Iniciação esta na qual se destaca o valor dado à “experiência pessoal”, em que os indivíduos “estão destinados – quer queiram quer não – a participar numa experiência religiosa mais intensa do que aquela que é acessível ao resto da comunidade. Dissemos: quer eles queiram quer não, porque é possível alguém tornar-se «medicine-men» ou xamã após uma decisão pessoal de se apropriar dos poderes religiosos (aquilo a que se chama a «busca»), mas também por vocação (o «chamamento»), ou seja, porque é forçado a sê-lo por seres sobre-humanos.”(3)

Tomaremos, igualmente, como ponto de partida a definição existente no dicionário de símbolos para a palavra Iniciação:

“Iniciar é, de certa forma, morrer, provocar a morte. Mas a morte é considerada como uma saída, a passagem de uma porta que dá acesso a outro lugar. À saída segue-se uma entrada. Iniciar é introduzir.”(4)

Dos três tipos de iniciação apontados por Mircea Eliade aqueles que, neste caso, mais nos interessam são os dois últimos. O primeiro, a iniciação na puberdade, existindo também no ocidente, nas três religiões do Livro, é obrigatório e dirigido aos membros de uma comunidade como introdução num mundo simbólico, teórico e prático. Os dois últimos são mais elitistas, por assim dizer, caminham do geral, por exemplo uma sociedade secreta, para o particular, para o individuo. Há como que um afunilar nas vias iniciáticas e, no entanto, esse afunilar, ao terminar no indivíduo único, pode gerar, por sua vez, movimentos regeneradores ao nível de uma comunidade, por exemplo, Cristo pertencerá, com certeza, ao último tipo de iniciação apontado por Mircea Eliade, a sua iniciação foi directamente conduzida por forças não-humanas sobrenaturais (ficando aqui a sua origem humana ou não em segundo plano na análise). É, ainda assim, na concentração de um único indivíduo, Cristo, que se origina uma nova religião, com todos os seus níveis: exotérico (por exemplo, os ritos de passagem para a idade adulta, como o Crisma), esotérico (por exemplo, sociedades secretas que fazem girar as suas iniciações em torno de temas cristãos), e ainda as iniciações individuais (por exemplo o caso dos santos místicos), que originam, por sua vez, movimentos regeneradores dentro do próprio cristianismo; é, portanto, um movimento circular aquele que preside à iniciação no ocidente.

Tanto Rémi Boyer como Fernando Pessoa partem do principio que existem vários tipos de iniciação. Fernando Pessoa estabelece três tipos de iniciação:

Há, primeiro, e no nível ínfimo, a iniciação exotérica, análoga à iniciação maçónica (…) que serve para pôr o indivíduo em condições de poder dar-se o caminho esotérico, de poder buscar, pelo contacto, embora esotérico, com símbolos e emblemas, o verdadeiro caminho. O mais exterior e nulo dos sistemas iniciáticos – como é hoje o da maçonaria – serve este fim. ( …) o único fim com que os Rosa-Cruz instituíram a maçonaria exotérica é o de pôr muita gente em contacto com, por assim dizer, o aspecto externo da verdade oculta (…). Há depois a iniciação esotérica. Difere da primeira, em que tem de ser buscada pelo discípulo, e por ele desejada e preparada em si mesmo. «Quando o discípulo está pronto», diz o velho lema dos ocultistas, «o mestre está pronto também». Há por fim a iniciação divina. (…) vem directamente, e por cima de todos, das mesmas mãos, do que chamamos Deus.”(5)

Embora a Maçonaria seja uma sociedade secreta, não se dirigindo a toda a comunidade, tem, para Fernando Pessoa, um papel semelhante àquele descrito por Mircea Eliade quando se refere à Iniciação com vista à passagem da puberdade à idade adulta. No fundo, há na Maçonaria, como nesse tipo de iniciações, regras de conduta que são transmitidas, uma base teórica com vista à especulação e ainda um conjunto de símbolos e rituais que integram o neófito num sistema de valores. A crítica de Pessoa à Maçonaria como tendo um valor nulo iniciático é ainda mais vigorosa do que a de Rémi Boyer quando este, após conotar a Maçonaria com a Iniciação na Cidade e os Rosa-Cruz como sendo o protótipo da Iniciação no Jardim, afirma:

Iniciação na Cidade está estabelecida em torno de constrangimentos. A doutrina será privilegiada como objecto do saber. A Cidade estabelece, aliás, listas de objectos iniciáticos e não iniciáticos (o alimento, a tecnologia, a sexualidade) assim como distingue o profano e o sagrado, nos espaços exteriores como nos espaços interiores.”(6)

Poder-se-á dizer, e retirando das entrelinhas algumas palavras invisíveis destes dois textos, que o ritual maçónico incorre no erro de ser um teatro sem alma. O Despertar, entenda-se, pratica-se no sentido em que o indivíduo se encontra no estado de vigilante ou em estado de vigília, ou ainda, nas palavras de Almada Negreiro, “à escuta do universo”(7). O mesmo problema suscitado pela Iniciação é levantado em relação à Arte, não havendo muita diferença entre aquele que pratica uma certa vibração ou frequência dentro do silêncio, aqui como processo iniciático e o artista que deixa que a inspiração nele flua, à boa maneira medieval, isto partindo do principio que, no inicio, maçons eram aqueles que praticavam a arte da pedra. A arte como duplo sopro que molda as formas no areal: o vento molda a areia e sopra, por sua vez, segundo e seguindo as formas desse areal moldado por ele em influência criativa mútua (as bacias semânticas das quais nos fala Gilbert Durand). É sempre um princípio superior que se espera que influencie o artífice:

A iniciação representa verdadeiramente e legitimamente o espírito, animador principal de todas as coisas, enquanto no que diz respeito à «pseudo-iniciação», o espírito está naturalmente ausente. Daqui resulta imediatamente que a acção assim exercida, em vez de ser realmente «orgânica», só pode ter um carácter puramente «mecânico».(8)

Rémi Boyer é mais descritivo relativamente aos processos de funcionamento maçónicos, visando demonstrar a contradição no que se refere às palavras Igualdade e Fraternidade:

“Em Loja, a palavra circula de cima para baixo e de baixo para cima. A deslocação de Loja em Loja está submetida ao controlo hierárquico (…) O saber é esperado vindo do outro, de fora, ainda que por vezes seja «de fora de em si mesmo».(9)

Faz, deste modo, um aviso atento à diferença existente entre iniciação externa e iniciação interna, sendo que o “de fora em si mesmo” será trabalho meramente intelectual, sem a participação do espírito, ainda que solitário. Toda esta hierarquia piramidal existente em Loja acaba por“…impossibilitar o Companheirismo tradicional, que é, no entanto, o que justifica a Iniciação na Cidade.”(10) Igualdade e Fraternidade são dois conceitos, portanto, dificilmente alicerçados, uma vez que implicariam uma certa horizontalidade, uma determinada Távola Redonda, na qual os Iniciados estariam igualmente posicionados face ao Centro. Em pirâmide verticalizada, tal distancia não é possível. A Fraternidade pura, entre irmãos de um mesmo pai e de uma mesma mãe, é difícil de encontrar numa Sociedade que distingue Aprendizes, Companheiros e Mestres; o mais velho, o mais sábio, está numa plano acima do neófito Aprendiz.

Também a face “especulativa” da Maçonaria não é poupada, nesta discrição que permeia a crítica: tendo raízes operativas sobre a matéria e, tendo sido minimizado, ao longo dos últimos quatro séculos, o trabalho manual sobre a pedra, dá-se a impossibilidade de realizar a Obra: “A realização da Obra-Prima é muitas vezes esquecida para se contentar apenas com o conceito de obra-prima, com a sua ideia.” (11)

Se Fernando Pessoa fala da Maçonaria como a face exotérica, exterior daquilo que supostamente guarda uma sabedoria oculta, e se afirma até que foram os Rosa-Cruz que “instituíram a Maçonaria”, provavelmente numa alusão a um qualquer período coincidente com a passagem da Maçonaria operativa à especulativa (talvez como esforço de resgate e salvação de alguma sabedoria em risco de se perder), Boyer fala dessa face exterior da Ordem iniciática tendo em vista o apelo tradicional da supremacia do Espírito sobre a matéria:

A Cidade promove as organizações iniciáticas que não passam de criações humanas, veículos imperfeitos e ecos muitas vezes longínquos das vias iniciáticas, sendo estas, na sua essência, «não humanas», entenda-se «não condicionadas». (12)

Sendo o Iniciado na Cidade aquele que se “mostra”, que se dá a conhecer, enfim, que é um

conquistador, inscrito no esforço, por vezes em sobre-esforço; quer progredir, evoluir, atingir o divino, etapa após etapa. É uma visão prometeica, típica da «pessoa», do «eu», do ego fascinado pelo devir. O iniciado na Cidade está ainda sobre a influência da «pessoa» () Perdido no duplo constrangimento da Cidade de Deus e da Cidade dos homens, o iniciado na Cidade cai por vezes no pacto faustiano.” (13)

Como se poderá dar a passagem da Cidade para o Jardim? É Fernando Pessoa que, falando das “habilitações indispensáveis aos candidatos”, nos revela essa passagem. Notamos aqui igualmente as duas matérias primas que regem estes tipos de iniciação: na Maçonaria a matéria-prima é a pedra, no Jardim, a madeira. Numa primeira fase o homem construiu com madeira, numa segunda fase com pedra: “…por isso a arte da carpintaria que aparece como auxiliar a maçonaria, é-lhe anterior”,mais primitiva, portanto, mas também ligada à matéria orgânica, sensível e mais subtil“A suprema arte do carpinteiro trabalha com a matéria do mundo e os aprendizes têm de transformar-se em pássaros para não sentirem a vertigem sobre os altos andaimes.” (14)

É a madeira, segundo António Telmo, a “matéria do mundo”, e ainda“Em português, matéria é madeira, que se arranca das florestas“ (15), sendo as raízes, matrizes, e dando ainda um ensinamento Maçónico: “O Grande Arquitecto do Universo edificou o Templo do Mundo sobre a madeira” (16). Matéria mais subtil, portanto, obrigando os aprendizes a transformarem-se em pássaros para que não “caiam” das alturas, tendo sempre em vista que ”Em Tiferet, no centro dos centros, já não há esse perigo de cair, porque o baixo é o alto e o alto é o baixo. O Sol não cai, imóvel no centro do seu sistema. Pois para que lado há-de cair, se já não há lado?”(17) Esses aprendizes de “jardinagem” devem ter características fundamentais:”Ser um simbolista (…) para quem os símbolos são coisas, vidas, almas, e para quem, paralela e conversamente, as coisas e os homens tenham, em certo modo, a vida irreal, a analógica dos símbolos”, devem estudar as matérias com simpatia, que pode ser induzida com um “grande poder de imaginação, de despersonalização, de auto-sugestão”, e, por fim, saber nas ler nas entrelinhas, pois “os livros maçónicos, e sobretudo os públicos, por isso mesmo que são públicos, não são nem podem ser escritos em linguagem que não seja a linguagem que lá está.”(18)E Pessoa chama a atenção mais à frente: “É impossível chegar a qualquer entendimento íntimo da Maçonaria sem ter conhecimento da chamada Ciência Hermética”(19) e aqui dá-se então o passo fundamental: está o aprendiz no limiar, no portal de acesso ao jardim. Mas não está ainda no jardim. A despersonalização terá de ser dupla: morte da “pessoa” e morte daquilo que mais ama: “os símbolos”, primeiro uma morte dos símbolos como suporte de um ritual, em seguida a morte efectiva de todos os símbolos (num percurso que, lembremos, é de morte e renascimento), isto porque “Quem tenha em si o poder de sentir pronta e instintivamente a vida dos símbolos não precisa de iniciação ritual.“(20), palavras que mais uma vez vão ao encontro das de Rémi Boyer: “Qualquer via começa onde acaba a imitação e a repetição, onde se apaga a organização iniciática. Ela é realmente um abandono das formas, incluindo das formas sagradas que são os ritos, para penetrar o Grande Real.”(21)O problema da repetição e da criação é aquele que se enlaça com a própria natureza e seus segredos, a manutenção dos ciclos em repetição é sempre constituída também por uma arritmia breve mas suficientemente forte (porque provém de um tempo forte, o sagrado) para que haja mudança. É assim que, no pensamento hermético, nada é absolutamente equivalente na natureza. Um pássaro gera outro da mesma espécie, mas em si são dispares, com pequenas diferenças quase imperceptíveis, mas que geram a renovação das gerações, como padrões que mudam devagar, ou músicas que se transformam noutras com ligeiras alterações nas notas até à aquisição final de uma forma totalmente nova, e, no caso do sagrado, Totalmente Outra. Diríamos que as pequenas intervenções do Espírito Santo vão gerando pequenas mutações com o propósito de uma perfeição final. Larga-se o papel do“caseiro” do jardim, que mantém a casa e entra-se num outro estado, o do Jardineiro que cria o jardim dentro de si:

O iniciado não tem qualquer necessidade de nomear a Coisa. Ele é a própria Coisa. Ele é o próprio Jogo da Energia e da Consciência, o jogo sem “eu”, o jogo sem palavras e sem males pois a oposição obsessiva entre o “bem” e o “mal” — característica da Cidade e das suas leis liberticidas — dissolveu-se na Imperiência da Liberdade Absoluta.”(22)

Chegámos, aqui, ao terceiro elemento, o da Liberdade, que, afinal, na iniciação maçónica era, tal como a Fraternidade e a Igualdade, afinal uma lei liberticida, uma não-liberdade. E os símbolos, esses que eram suporte de meditação, que se erguiam em dança nos rituais, que brilhavam em cima de panos escarlate, são, afinal, parte de um mundo ilusório, eles pertencem a este mundo apenas, de alguma maneira eles morrem e o neófito morre com eles:

Mas o verdadeiro significado da iniciação é o de ser este mundo visível em que vivemos um símbolo e uma sombra, e o de ser esta vida que conhecemos por intermédio dos sentidos uma morte e um sono, é o de ser quanto vemos uma ilusão. A iniciação é o desfazer gradual e parcial dessa ilusão. A razão para ser simbólica é não ser a iniciação um conhecimento mas uma vida e por conseguinte devem os homens pensar pela sua cabeça o que os símbolos mostram, pois de tal modo não apenas aprenderão as palavras em que se exprimem, mas viverão por si próprios as suas vidas“(23),

ou nas palavras de Rémi Boyer, num outro livro: “As Vias Reais são feitas para aqueles que são reais, que vivem, em vez de serem vividos“(24). O mistério da morte iniciática é, ainda assim, silenciado, por todos os hermetistas, sendo apenas comunicado por uma linguagem simbólica, como por exemplo “morrer de amor”, em Dante e Camões, na linhagem dos Fiéis d’Amor, a “abertura da matéria” em Alquimia, ou ainda, as mortes fragmentadas em êxtase dos místicos, em visão e vivência corporal, traduzida, por exemplo, por Bernini na magnífica estátua na qual Santa Teresa de Ávila desfalece em frente a um anjo que segura uma seta.

É nesta dupla condição, de morte em vida e vida em morte, numa espécie de suspensão num abismo, que é possível caminhar pelo Jardim e conter, em simultâneo o Jardim dentro de si. Porque não há ego, nem eu, o Iniciado não se “mostra” nem “demonstra” como o Iniciado na Cidade, ao invés, ele “… oculta-se. Para vivermos livres, vivamos ocultos, diz o Mestre Jardineiro.”(25)

Foi dita a frase a Rémi Boyer por Lima de Freitas: “O Modernismo abre espaço para a Tradição passar”. É  uma frase digna de um Fiel d’Amor. Assim, na perspectiva de Boyer, o Modernismo vai ser o movimento que se solta e um movimento solto de antigos espartilhos simbolistas e decadentistas. São os  Modernistas, nestes tempos próximos de nós, os inventores  do próprio tempo e, na sua vertigem de invenção, de criação, de arte, de alguma forma, projectam-se até ao limite de um Futurismo vivido antecipadamente, acabando por alterar as leis do tempo que são sempre constrangimentos, que são sempre condicionantes, até atingir um não-tempo:”O iniciado no Jardim é um poeta, um fazedor – palavra que define o alquimista -, um profeta do não-tempo, um teósofo. Ele sabe que tudo já está cumprido, que ele não está em devir. Ele é o Absoluto. Ele é. A iniciação no Jardim não é conquistadora, é libertária, é uma Recordação, segundo Hermes, uma Reintegração, segundo Martinez de Pasqually, um Re-conhecimento da sua Liberdade Absoluta, para Mestre Eckhart, como para Abinavagupta. O iniciado no Jardim está des-mascarado, é acéfalo. Nesse sentido, o iniciado no Jardim opõe-se ao profeta. É um hipo-feta, palavra forjada por Rabelais para designar aquele que se recorda do que já passou, do antigo. Mas este «antigo» é mais antigo do que o antigo, é original; é por isso que ele é totalmente novo e vanguardista, tanto na sua expressão como na sua impressão.”(26)O iniciado no Jardim reencontra-se também com a matéria-prima, sendo que o seu ofício externo e visível na sua “expressão” e “impressão”possa ser o da criação, domínio para o qual ele nasceu (raíz do verdadeiro adepto), de um Jardim, de um Poema, e o seu interno é o de um Mestre (poderemos dizer de um mestre de cerimónias, se bem que as cerimónias sejam produto de um Mistério, traduzidas na Alegria que preside a Vida) que conduz, ou antes, abre a porta para que se dê a iniciação, esta sim, subtil e derradeira, mas apenas como um destino que se cumpre num fluir natural a par (e sempre em sintonia) com o fluir sobrenatural e, no qual o desejo é “axializado“, e não terreno. A sua matéria-prima é viva, os objectos dos quais se socorre já não estão dentro dos limites e divisões do sagrado e do profano:”No Jardim, não há objecto iniciático e objecto não-iniciático. Qualquer situação pode beneficiar de um tratamento iniciático. Não é a situação externa e interna que importa, mas sim a relação de consciência mantida com a situação, que a torna a própria matéria da Obra.”(27)

Ele é um “despertador”: “No Jardim, o ensinamento é como o bater de asas da águia. Uma palavra, um olhar, uma alusão, um silêncio, um gesto, uma imobilidade despertam para o Grande Real“(28), mas um despertador no âmago, na verdade, no plano em que não há “eu”, ele desperta ao ponto de não haver distância, separação entre ele e o outro, porque se tudo é passível de tratamento iniciático, e a sensibilidade desperta reside no Absoluto, então ele “sofre mais no corpo dos outros do que no seu próprio corpo“(29), digamos que, em termos iniciáticos, ele vive mais a morte do outro do que a sua.

Se até aqui estávamos no plano da Liberdade, regressamos mais uma vez, mas agora em viagem interna e oculta, ao plano da Igualdade e da Fraternidade. Numa voz em coro com a de Fernando Pessoa, diz-nos Rémi Boyer: “A Confraria dos Jardineiros da Rosa designa uma axiologia composta por todos aqueles que passaram para lá da Aparência das aparências e se reconheceram como o Absoluto, o próprio Senhor”(30); indo ainda mais longe na descrição de tal estado, Fernando Pessoa escreve não designando os Rosa-Cruz mas sim a Ordem de Cristo:

A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito ou passe. Não precisa reunir-se, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns aos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela, já se lhe não pertence. (…). Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Não se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: “quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também. “E é na palavra “pronto” que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.

Fiel à sua obediência – se assim se pode chamar onde não há obedecer -, à fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros – chamemos-lhe sempre assim – não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelos simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.”(31)

É então desvendada a verdadeira metáfora, provocada pela Maçonaria quando menciona pedreiros livres, fraternos e iguais entre si. Hierarquizada, ritualizada, com juramentos, obediências e lealdades, símbolos, uma matéria-prima existente apenas como decoração (sem que ninguém a trabalhe, de facto e literalmente) e ainda um Grande Arquitecto do Universo, dúbio, às vezes, pela ausência de crença em princípios espirituais, desde o século XIX, a Maçonaria nada mais é, afinal, do que uma Grande Alegoria do que será uma iniciação interna, efectiva e actuante, vinda directamente das profundezas do coração da Tradição.

Tanto Fernando Pessoa como Rémi Boyer partem de uma crítica (sobre um ponto de vista analítico totalmente impessoal no apelo da observação) do chamado mundo externo para chegar ao interno; uma via iniciática externa, a Maçonaria, e outra, interna, a da Arte Hermética. Por um percurso um pouco sinuoso, é indicada, pelos dois autores, a possibilidade de se sair de um circulo vicioso, que é no fundo o circulo vicioso da própria vida enquanto “somos vividos” e não “vivemos”. Este trabalho procurou acompanhar apenas (e não recriar pelas próprias palavras) o caminho elaborado por estes dois autores na procura de uma Via Iniciática verdadeira, dentro do esoterismo ocidental. No final, fica suspensa a questão, até porque Fernando Pessoa brincava facilmente com palavras, mas sobretudo com ideias: não será uma alegoria também o que o poeta escreveu relativamente à aparentemente extinta Ordem Templária de Portugal afirmando ter tido o seu término exactamente no ano do nascimento do poeta? Não terá antes re-nascido com ele? Se “O jardim está onde está o iniciado“(32), e ainda, “a Obra-Prima é realizada“(33), não será este, afinal, o retrato do poeta enquanto iniciado e iniciador?

Notas
(1) 
Eliade, Mircea, Ritos de Iniciação e Sociedades Secretas, Edições Ésquilo, 2004, pág. 22
(2)
 Obra cit., pág. 22
(3) Obra cit., pág. 22
(4) Chevalier, Jean; Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, Ed. Círculo de Leitores, 1997, pág. 377
(5) Pessoa, Fernando, Obra em Prosa de Fernando Pessoa, A procura da Verdade Oculta – Textos Filosóficos e esotéricos, prefácio, organização e notas de António Quadros, Ed. Europa-América, 2ª edição, 1989, pág. 168
(6) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra – Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 92
(7) Negreiros, Almada, A Invenção do Dia Claro, Ed. Assírio & Alvim, 2005, pág. 12
(8) Guénon, René, O Reino da Quantidade e os sinais dos Tempos, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 1989, pág. 229
(9) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra – Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 91
(10) Obra cit., pág. 91
(11) Obra cit., pág. 92
(12) Obra cit., pág. 94
(13) Obra cit., pág. 96
(14) Telmo, António, O Mistério de Portugal na História e n’Os lusíadas, Ed. Ésquilo, 2004, pág. 26
(15) Obra cit., pág. 266
(16) Obra cit., pág. 266
(17) Obra cit., pág. 266
(18) Pessoa, Fernando, Obra em Prosa de Fernando Pessoa, A procura da Verdade Oculta – Textos Filosóficos e esotéricos, prefácio, organização e notas de António Quadros, Ed. Europa-América, 2ª edição, 1989, pág. 168
(19) Obra cit., pág. 170
(20) Obra cit., pág. 175
(21) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra – Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 101
(22) Obra cit. pág. 102
(23) Obra cit., pág. 178
(24) Boyer, Rémi, O Louco de Shakti, Ed. Hugin, 1998, pág. 7
(25) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra – Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 94
(26) Obra cit., pág. 97
(27) Obra cit., pág. 94
(28) Obra cit., pág. 94
(29) Boyer, Rémi, Poeiras de Absurdidade Sagrada – Livro Solar, Co-Edição Zéfiro e Arcano Zero, 2011, pág. 44
(30) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra – Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero, 1ª edição, 2011, pág. 105
(31) Pessoa, Fernando, Obra em Prosa de Fernando Pessoa, A procura da Verdade Oculta – Textos Filosóficos e esotéricos, prefácio, organização e notas de António Quadros, Ed. Europa-América, 2ª edição, 1989, pág. 231
(32) Boyer, Rémi, O Discurso de Sintra – Metafísica & Iniciação, Co-edição Zéfiro e Arcano Zero,edição, 2011, pág. 92
(33) Obra cit., pág. 92

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